Entre a urgência do mundo e o compasso do fazer artesanal, Val reflete sobre criação, vida cotidiana e escolhas no início de um novo ciclo.
O tempo que o mundo exige
Começo de ano sempre me faz pensar em ritmo. No ritmo que vivemos, no que nos é imposto e naquele que tentamos construir. Vivemos num mundo em que tudo precisa estar pronto para ontem. Produzir rápido, responder rápido, decidir rápido. A urgência e o imediatismo viraram regra.
Conciliar esse ritmo com a vida real já é um desafio. Dividir o tempo entre ser mãe, esposa, amiga, filha e profissional exige uma logística quase matemática. Do ponto de vista prático, é uma equação difícil – e nem sempre fecha.
O tempo que a criação pede
Aprender o ofício do lunetier me colocou diante de outro compasso. Um ritmo mais lento, paciente, quase obstinado. Fazer óculos envolve cortar, lixar, testar, ajustar, errar e refazer. Nada acontece rápido. Nada se resolve sem presença.
Estamos acostumados ao consumo imediato: vemos algo, gostamos, compramos e em pouco tempo o produto chega. Com óculos feito por um lunetier, essa lógica se inverte. Há espera, conversa, ajustes. Há tempo para entender quem vai usar, como usa, o que busca quando se olha no espelho. E isso muda a relação com o objeto – e também comigo, que estou aprendendo a fazê-lo.
Criar a forma é a parte mais fluida para mim; as ideias vêm. Mas as mãos ainda descobrem o caminho. E isso também exige tempo: o tempo do erro, da repetição, do aprendizado.

Como artista, sempre vivi um tempo mais interno. Pintar nunca foi sobre produtividade, mas sobre escuta. Quando a criação passa a carregar expectativa e prazos, o gesto pesa. A ansiedade aparece. E o contraste com a velocidade do mundo se intensifica.
O tempo que escolho cultivar
Lidar com esses tempos – o do mundo, o da vida prática e o do fazer artesanal – tem sido uma provação diária. Não é simples, nem romântico. É um exercício constante de ajuste e escolhas imperfeitas.
Mas começo a entender que o lunetier vive em outro ritmo. Um ritmo mais atento. Que permite ouvir com calma, esculpir o acetato sem pressa e ajudar alguém a se reconhecer no espelho.

Neste início de ano, mais do que produzir mais ou mais rápido, desejo aprender a respeitar meu próprio compasso. O da vida. E o da criação. Talvez esse seja o aprendizado mais profundo desse caminho.
Mini-bio
Val Coelho é nutricionista de formação e futura lunetier de coração. Apaixonada por arte, cores e histórias com propósito, descobriu no design de óculos uma nova forma de cuidar – agora, do olhar.
Contatos: @val_coelho_oficial val@vallunetier.com.br