Val Coelho: a inspiração mora nos detalhes

Entre gestos pequenos, cores inesperadas e silêncios do cotidiano, Val fala sobre como o olhar atento alimenta sua criação como lunetier.

O olhar que aprende a reparar

Tenho percebido que a inspiração raramente chega em grandes acontecimentos. Ela costuma vir em coisas mínimas, quase invisíveis para quem anda apressado demais. A capa de um livro, a textura de uma folha ao sol, a dobra de um tecido antigo…

Desde que comecei a trilhar o caminho do ofício artesanal, meu olhar ficou mais lento e mais atento. Passei a reparar em detalhes que antes passavam direto: cores que se encontram por acaso, imperfeições bonitas, formas que não foram desenhadas por ninguém, mas parecem ter sido.

É como se o mundo estivesse o tempo todo oferecendo pequenas pistas visuais. Basta aprender a olhar.

Quem nunca se surpreendeu com os tapetes de flores pelos caminhos? Eu sempre me conecto com esses momentos…

A vida como referência estética

Às vezes, a inspiração vem de coisas que não têm nada a ver, em aparência, com óculos. O cheiro de um bolo assando. O vapor subindo devagar de uma xícara de café. O som distante de um pássaro no começo da manhã.

Outras vezes, vem de imagens mais visuais: uma paleta de cores num pôr do sol, o movimento lento das nuvens, o verde irregular de uma folhagem vista de perto.

E há também as aves. Sempre fui fascinada pela plumagem dos pássaros quando observados de perto – pelas sobreposições de cores, pelos brilhos sutis, pelos desenhos que parecem pintados à mão. Quando vou para a praia, no litoral paulista, fico encantada ao ver um tiê-sangue pousando por perto, com aquele vermelho intenso, quase irreal. E os beija-flores? Ah, como me encanto com eles…

Tudo isso fica guardado em algum lugar dentro de mim, como um arquivo silencioso de formas, cores e texturas.

Criar é aprender a traduzir

Criar, para mim, é isso: traduzir esses pequenos encantamentos em forma. Nem sempre de maneira literal. Às vezes é só uma curva que lembra um movimento. Uma cor que carrega uma memória. Uma textura que nasce de outra textura.

Quando desenho uma armação, carrego comigo tudo isso, mesmo sem perceber. As cores que vi, as formas que me tocaram, os ritmos que observei. Tudo isso reaparece, de algum jeito, no acetato, na espessura da haste, no desenho da frente.

Talvez seja por isso que acredito que o verdadeiro luxo hoje é o tempo de reparar. O tempo de sentir. O tempo de deixar que a beleza miúda do cotidiano atravesse a gente.

No fundo, minha matéria-prima não é só acetato. É atenção.

Mini-bio

Val Coelho é nutricionista de formação e futura lunetier de coração. Apaixonada por arte, cores e histórias com propósito, descobriu no design de óculos uma nova forma de cuidar – agora, do olhar.
Contatos: @val_coelho_oficial    val@vallunetier.com.br